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Christus vivit, o talento para amadurecer

Um ano depois do Sínodo sobre os jovens, rapazes e moças do mundo refletem sobre a "Christus vivit", a Exortação do Papa Francisco. Belos, inteligentes, fortes: para muitos, crescer significa isso. Fazer “crescer” a alma é outro discurso. São necessários "percursos de fraternidade", afirma o Papa. É o que procura oferecer aos jovens Jesús Cevallos, 27, que une fé e informática.


Christus vivit
                                                      (parágrafos 158-167)


O crescimento e a maturação

158. Muitos jovens vivem preocupados com o seu corpo, procurando desenvolver a força física ou melhorar o aspeto exterior. Outros preocupam-se por desenvolver as suas capacidades e conhecimentos, e assim sentem-se mais seguros. Alguns apostam mais alto, comprometendo-se mais e procurando progredir espiritualmente. Dizia São João: «Eu vo-lo escrevi, jovens, [porque] vós sois fortes, a palavra de Deus permanece em vós» (1 Jo 2, 14). Buscar o Senhor, guardar a sua Palavra, procurar corresponder-lhe com a própria vida, crescer nas virtudes: isto torna fortes os corações dos jovens. Para isso, é preciso manter a união com Jesus, estar em sintonia com Ele, uma vez que não crescerás na felicidade e santidade só com as tuas forças e a tua mente. Assim como te preocupas por não perder a conexão com a internet, assegura-te de igual modo que esteja ativa a tua ligação com o Senhor, o que significa não interromper o diálogo, escutá-Lo, contar-Lhe as tuas coisas e, quando não souberes claramente o que deves fazer, pergunta-Lhe: «Jesus, que farias Tu no meu lugar?»[84]

159. Espero que possas manter a autoestima e levar-te tão a sério que procures o teu crescimento espiritual. Além do entusiasmo próprio da juventude, há também o encanto de buscar «a justiça, a fé, o amor e a paz» (2 Tim 2, 22). Isto não significa perder a espontaneidade, o frescor, o entusiasmo, a ternura. Com efeito, tornar-se adulto não significa abandonar os valores melhores desta fase da vida; caso contrário, o Senhor poderia um dia censurar-te: «Recordo-Me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando Me seguias no deserto» (Jr 2, 2).

160. Aliás o próprio adulto deve maturar, sem perder os valores da juventude. Na realidade, cada fase da vida é uma graça permanente, contém um valor que não deve passar. Uma juventude bem vivida permanece como experiência interior e, na vida adulta, é assimilada, aprofundada e continua a dar os seus frutos. Se é próprio do jovem sentir-se atraído pelo infinito que se abre e começa,[85]um risco da vida adulta – com as suas seguranças e comodidades – consiste em ir transcurando progressivamente tal horizonte e perder aquele valor próprio dos anos da juventude; quando deveria suceder o contrário: amadurecer, crescer e organizar a própria vida sem perder aquela atração, aquela abertura ampla, aquele fascínio por uma realidade que cresce sem cessar. Em cada momento da vida, podemos renovar e fazer crescer a nossa juventude. Quando comecei o meu ministério como Papa, o Senhor alargou os meus horizontes e deu-me uma renovada juventude. O mesmo pode acontecer com um casal já com muitos anos de matrimónio, ou com um monge no seu mosteiro. Há coisas que precisam dos anos para se consolidar, mas este amadurecimento pode coexistir com um fogo que se renova, com um coração sempre jovem.

161. Crescer quer dizer conservar e alimentar as coisas mais preciosas que te oferece a juventude, mas ao mesmo tempo significa estar disponível para purificar o que não é bom e receber novos dons de Deus, que te chama a desenvolver o que tem valor. Às vezes, os complexos de inferioridade podem levar-te a não quereres ver os teus defeitos e fragilidades, fechando-te assim ao crescimento e à maturação. É melhor deixares-te amar por Deus, que te ama como és, aprecia-te e respeita-te, não cessando, porém, de te cumular cada vez mais da sua amizade, fervor na oração, fome da sua Palavra, anseio de receber Cristo na Eucaristia, vontade de viver o seu Evangelho, força interior, paz e alegria espiritual.

162. Lembro-te, porém, que não serás santo nem te realizarás copiando os outros. Quando se fala em imitar os santos, não significa copiar o seu modo de ser e de viver a santidade: «Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós».[86]Tens de descobrir quem és e desenvolver o teu modo pessoal de seres santo, independentemente daquilo que digam e pensem os outros. Fazeres-te santo é tornar-te mais plenamente tu próprio, aquele que Deus quis sonhar e criar, não uma fotocópia. A tua vida deve ser um estímulo profético que sirva de inspiração para os outros, que deixe uma marca neste mundo, aquela marca única que só tu poderás deixar. Ao passo que, se copiares, privarás esta terra e também o Céu daquilo que mais ninguém poderá oferecer no teu lugar. Lembro-me que São João da Cruz deixou escrito, no seu Cântico Espiritual, que cada um devia servir-se dos seus conselhos espirituais, «a seu modo»,[87] porque o próprio Deus quis manifestar a sua graça «a uns duma maneira e a outros doutra».[88]

Percursos de fraternidade

163. O teu crescimento espiritual manifesta-se sobretudo no amor fraterno, generoso, misericordioso. Assim no-lo diz São Paulo: «O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos» (1 Ts 3, 12). Possas tu viver cada vez mais aquele «êxtase» que consiste em sair de ti mesmo para buscares o bem dos outros, até dar a vida.

164. Quando um encontro com Deus se chama «êxtase» é porque nos tira fora de nós mesmos e nos eleva, cativados pelo amor e a beleza de Deus. Mas podemos também ser levados a sair de nós mesmos para reconhecer a beleza escondida em cada ser humano, a sua dignidade, a sua grandeza como imagem de Deus e filho do Pai. O Espírito Santo quer impelir-nos a sair de nós mesmos, para abraçar os outros com o amor e procurar o seu bem. Por isso, é sempre melhor vivermos a fé juntos e expressar o nosso amor numa vida comunitária, partilhando com outros jovens o nosso afeto, o nosso tempo, a nossa fé e as nossas preocupações. A Igreja oferece muitos e variados espaços para viver a fé em comunidade, porque, juntos, tudo é mais fácil.

165. As feridas recebidas podem levar-te à tentação do isolamento, a retrair-te dentro de ti mesmo, a acumular ressentimentos, mas nunca deixes de ouvir a chamada de Deus ao perdão. Como justamente ensinaram os bispos do Ruanda, «a reconciliação com o outro requer, em primeiro lugar, que se descubra nele o esplendor da imagem de Deus. (...) Nesta perspetiva, é vital distinguir o pecador do seu pecado e da sua ofensa, para chegar à verdadeira reconciliação. Isto significa que odeias o mal que o outro te inflige, mas continuas a amá-lo porque reconheces a sua fraqueza e, nele, vês a imagem de Deus».[89]

166. Às vezes toda a energia, os sonhos e o entusiasmo da juventude se atenuam pela tentação de nos fecharmos em nós mesmos, nos nossos problemas, sentimentos feridos, lamentações e comodidades. Não deixes que isto te aconteça, porque ficarás velho por dentro e antes do tempo. Cada idade tem a sua beleza, e à juventude não pode faltar a utopia comunitária, a capacidade de sonhar juntos, os grandes horizontes que contemplamos juntos.

167. Deus ama a alegria dos jovens e convida-os sobretudo à alegria que se vive na comunhão fraterna, ao júbilo superior de quem sabe partilhar, pois «a felicidade está mais em dar do que em receber» (At 20, 35) e «Deus ama quem dá com alegria» (2 Cor 9, 7). O amor fraterno multiplica a nossa capacidade de nos alegrarmos, porque nos torna capazes de rejubilar com o bem dos outros: «Alegrai-vos com os que se alegram» (Rm 12, 15). Que a espontaneidade e o impulso da tua juventude se transformem sempre mais na espontaneidade do amor fraterno, no frescor que nos faz reagir sempre com o perdão, a generosidade, o desejo de construir comunidade! Diz um provérbio africano: «Se queres andar rápido, caminha sozinho. Se queres chegar longe, caminha com os outros». Não deixemos roubar-nos a fraternidade.

Fonte: Vatican News

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