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Explicando a pintura "A volta do Filho Pródigo" de Rambrandt

"A volta do filho pródigo" de Rambrandt.

O quadro, pintado dois anos antes da morte do artista, além da visualização de uma das mais bonitas e expressivas parábolas de Jesus, expressa a trajetória da vida do Rembrandt. É a reflexão sobre a condição existencial na maturidade da sua vida.


O quadro "O retorno do Filho Pródigo" se encontra hoje no famoso museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia.

Conhecemos a parábola descrita por evangelista São Lucas (15, 11-32), o evangelista da misericórdia. Vamos conhecer como o pintor apresenta cada uma das pessoas envolvidas na história e o seu estado interior.

As três figuras principais e outras três, em tamanho natural, formam uma unidade e a distância, para que se possa contemplar cada uma delas e interagir. O quadro apresenta a escuridão e a luz que ilumina as três figuras principais.

 

Voltar a casa.

Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: pai, dá-me a parte da herança que me cabe. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu.

Voltar é um ato depois de ter ido embora, encontrar o que se tem perdido ou deixado. O que é a casa?

A casa significa lar, comunhão, recíproca estima, felicidade de estar com as pessoas, de não estar sozinho. O modo de partir do filho mais jovem evidencia desprezo. A maneira do filho partir é equivalente a desejar a morte de seu pai. É uma rejeição cruel do lar no qual o filho nasceu e foi criado e uma ruptura com a tradição sagrada de ser família. Partir para um país estrangeiro é condenar-se à solidão, ir ao lugar onde não se respeita o que em casa é considerado sagrado. No sentido espiritual, deixar a casa é mais do que um acontecimento histórico; é negar a realidade espiritual de que pertenço a Deus com todo o meu ser, ignorar a verdade de que sou filho amado de Deus, é procurar onde não se pode encontrar a felicidade.


Em que condições o filho retorna? O quadro é expressivo. O filho se joga ao peito do pai, exausto e resignado, com roupas pobres, mínimas para cobrir o corpo, surradas, sandálias gastas, cabeça raspada como se fosse um presidiário, despojado da sua dignidade. Deixou a casa com orgulho e dinheiro, para viver a sua vida longe de todos e de tudo. Estas são as íntimas consequências do abandono do lar.

O filho pródigo tinha que perder tudo, chegar ao "fundo do poço" para entrar em contato com o seu ser.

  
 
Na cintura, do seu lado direito, está amarrado um punhal. Pelo aspecto contrasta com a indigência das roupas. É bonito, precioso, nobre. O jovem vendeu tudo, mas não se desfez do punhal. No fundo, estava apegado à única lembrança da casa, da condição que tinha abandonado: ser filho de um nobre pai. Tudo perdeu, menos a condição de filho. E esta consciência, no fundo do ser, foi o que salvou o jovem, fez que superasse o orgulho, se submetesse ao julgamento da verdade e tivesse coragem para voltar e enfrentar a humilhação. 

Um novo nascimento

São interessantes os detalhes da cabeça. Está apoiada no peito do pai como se quisesse voltar ao ventre. De fato, a sua cabeça lembra um feto. 

É um novo nascimento. A cabeça ainda está molhada como um recém-nascido. Quando o abraço terminar, o filho perdido e encontrado será um recém-nascido, um homem novo, verdadeiramente livre.

Alguns autores tentam dar um outro significado, que provavelmente não estava nas intenções de Rembrandt. É a imagem de Jesus Cristo, Filho único do Pai, que abandona o lar da divindade, vem morar com os que se encontram abaixo de qualquer dignidade, os pecadores, os "porcos" da humanidade. Volta para entregar ao Pai a missão cumprida, e receber a glória, representada pela luz que se irradia e ilumina. É a humanidade que retorna ao Pai, pela qual o Filho de Deus se fez pecado, é o kênosis, o despojamento aceito livremente pela salvação da humanidade, que agora com ele retorna ao Pai: Ele, existindo em forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano.

O pai

Então, ele partiu e voltou para junto do pai. Estava ainda longe, quando o pai o viu, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos (Lc 15,20).

O pai o "viu", porque nunca o perdeu de vista, porque sempre olhava com saudade e esperança de um dia poder vê-lo de novo. 

O filho é acolhido pelo pai solícito, que o abraça com afeto e ternura. O pai é coberto com o manto vermelho, com sinais de nobreza nos braços.

Seu rosto é velho, abatido, cansado, mas sereno e satisfeito. Lembra o velho Simeão no Templo, quando recebeu o Menino Jesus nos braços: "Agora, Senhor, segundo a tua promessa, deixa teu servo ir em paz, porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória de Israel, teu povo" (Lc 2, 29-32).


Não foi o filho que correu primeiro para abraçar o pai. Não deu tempo. Foi o pai que saiu correndo para abraçar e beijar o filho. Pelas convenções da cultura oriental um homem nobre devia cuidar para não perder sua dignidade e respeito. Posto que o comportamento do pai é o comportamento de Deus com seus filhos perdidos, podemos dizer que o amor de Deus por nós faz-lhe perder sua soberania e compostura e sair correndo ao nosso encontro para abraçar-nos na nossa sujeira, na nossa humanidade ferida e profanada, para devolver-nos a filiação e a dignidade perdidas.

 

Pai, pequei contra o céu e contra ti.

O pai ouve em silêncio a confissão do filho. Não o repreende, não pune. O amor não é vingativo e não precisa de palavras. O amor é intuitivo. Num instante compreende o amor ressuscitado no coração do filho, o seu arrependimento e a alegria da gratuidade do perdão.

Há um detalhe: as mãos de pai são diferentes uma da outra. Uma, apoiada no ombro, é de aspecto masculino. Outra, acariciando as costas, tem aspecto feminino, de mãe. É a ternura de Deus Pai chamada no Antigo Testamento como amor visceral de uma mãe. É a paternidade e a ternura de Deus, que "não  se cansa de perdoar" (Papa Francisco).

 

O filho mais velho


O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto da casa, ouviu música  e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. Ele respondeu: é teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque recuperou seu filho são e salvo. Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistiu com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos (Lc 15,25-29). 

Esta figura do lado direito do quadro é o filho mais velho. Apresenta semelhanças e diferenças com a figura do pai. É semelhante ao pai o rosto, barba, o manto vermelho, os sinais de nobreza nas vestes. É diferente: enquanto as mãos carinhosas do pai pousam sobre o filho mais novo, o abençoam e acariciam, as mãos do filho mais velho estão fechadas, nervosas. O rosto igualmente fechado, observando friamente, com desprezo e rancor.

Na parábola a vinda do filho mais velho do campo é cronologicamente posterior à volta e ao abraço do pai ao filho mais novo. No entanto, Rembrandt coloca duas cenas uma ao lado da outra. Deste modo, ele retrata não a história, mas o estado de espírito, o que estava acontecendo no interior das três pessoas.

Dom João Wilk

Bispo Diocesano de Anápolis

 

 

 

 


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