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Por que os mártires saíram de moda?

“É mártir que não acaba mais”: nestes últimos dias, em seu rito antigo, a Igreja celebra, em sequência, Santa Prisca (18), os santos Mário, Marta, Audíface e Ábaco (19), São Fabiano e São Sebastião (20), Santa Inês (21), São Vicente e Santo Anastácio (22). Atualmente, conservou-se como obrigatória na liturgia apenas a memória de Santa Inês, cujo nome consta na mais antiga oração eucarística da Igreja, o Cânon Romano.
Mas, ainda que a liturgia atual tenha reduzido bastante o número de santos do calendário, todo católico pode ter contato diário com os mártires de sua fé através de um livro chamado Martirológio Romano. Em dois mil anos de história, foram tantas as pessoas que testemunharam Cristo a ponto de derramar o próprio sangue que, para cada dia do ano, há pelo menos alguma delas para celebrar, recordar e invocar [1].
O fato, porém, é que não só perdemos contato com os mártires como a própria “teologia do martírio”, por assim dizer, saiu um pouco de moda. Como vivemos em um tempo de apostasia generalizada, a verdade é que muitos já não creem que realmente valha a pena ter os mártires como inspiração, admiração ou modelo a ser imitado. Diante de um Deus “avô”, que não castiga mais o pecado nem condena ninguém ao inferno, o peso dos atos humanos foi totalmente relativizado. Assim, não faz diferença, na prática, obedecer ou não a Deus, seguir ou não os seus Mandamentos, cometer aqui e ali um “deslize” ou outro. Desde que haja uma disposição geral e abstrata para “seguir Jesus”, “ser bom”, “viver o amor” — ainda que ninguém saiba, na prática, o que isso significa —, o que o ser humano faz ou deixa de fazer não importa.
Essa moral laxa casa muitíssimo bem com o indiferentismo religioso reinante: tanto faz ser católico, protestante, espírita, umbandista, budista ou o escambau. O importante é seguir algum deus — ou, às vezes, nem isso, pois dá para ser ateu também e seguir simplesmente uma “filosofia de vida”.
É principalmente por isso que os mártires não estão na moda. Porque eles, com sua vida e, sobretudo, com sua morte, denunciam e escancaram a falsidade desse pensamento. Os mártires apenas acreditavam no que a Igreja lhes tinha transmitido (ou seja, eles não criam em qualquer coisa), e por isso, simplesmente por isso, morriam. As mentes modernas, ao se depararem com qualquer relato do Martirológio, dizem: “São loucos”. E que seja assim não nos deve impressionar, pois a sabedoria de Cristo é, de fato, loucura para o mundo (cf. 1Cor 1, 18-25). Estranho mesmo é que os próprios seguidores de Cristo pensem assim e desprezem sua própria história e antepassados.
Não deveria ser dessa forma, mas de fato é.
O martírio e a caridade
Como remédio para essa mentalidade mundana que infelizmente contaminou muitos membros da Igreja, é preciso que repassemos rapidamente algumas noções sobre o martírio. Guiar-nos-á neste breve artigo Santo Tomás de Aquino (cf. STh II-II 124).
Antes, porém, de passar ao que diz o Aquinate, importa considerar que esta valiosa lição de sua pena vem, na verdade, do próprio Evangelho e parte de um pressuposto muito simples: o de que existe uma “escala” de bens, sendo que, pelos superiores, vale a pena sacrificar os inferiores. Melior est misericordia tua super vitas, diz a Deus o salmista: “A tua misericórdia é melhor que todas as vidas” (Sl 62, 4). Numa análise simples de quem tem fé, morrer para ganhar a vida eterna não é (ou não deveria ser) nenhuma loucura. Trata-se simplesmente de escolher o bem maior.
Os carrascos dos mártires geralmente lhes apresentavam uma saída aparentemente bem “simples”: realizar um determinado ato, pecaminoso, e livrar-se da morte. Bastava lançar um punhado de incenso diante da imagem do imperador. Bastava pisar uma imagem da Virgem Maria ou de Jesus. O mártir, porém, diz Santo Tomás, “nos propõe desprezar o mundo visível pelas realidades invisíveis” (4c.), a terra pelo Céu, o prazer momentâneo pela glória eterna, a vida deste mundo pela vida com Deus. Convenhamos: uma troca justa e, à luz da fé, perfeitamente racional.
É por isso que todo cristão deve estar disposto a sofrer o martírio, caso se lhe apresente a ocasião (1c.), como se repetisse com o salmista: Paratum cor meum, Deus, paratum cor meum — “Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração!” (Sl 107, 2). E por que isso? Porque o martírio é um ato de virtude, ao qual faz referência o próprio Jesus, nas suas bem-aventuranças: “Felizes aqueles que sofrem perseguição pelo amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5, 10).
Sofrer perseguição, no entanto, é diferente de buscá-la. É preciso ter o coração sempre pronto, mas isso não significa oferecer-se presunçosamente ao martírio. Cristo, por exemplo, por várias vezes saiu do meio de seus perseguidores, quando eles pegaram em pedras para matá-lo (cf. Mt 12, 14-15; Jo 8, 59). “Um homem nunca deve oferecer a outro uma ocasião de agir injustamente”, diz o Doutor Angélico. “Mas se o outro agir injustamente, o primeiro deve suportá-lo na medida do que sente” (1 ad 3).
Além disso, o martírio é um ato impossível sem a graça de Deus e sem a virtude da caridade, que o anima. Sem amor, recorda o Apóstolo, de nada valeria entregar o próprio corpo às chamas (cf. 1Cor 13, 3). Mas é tal a ligação entre o martírio e a caridade que Santo Tomás chega a ensinar o seguinte:
O martírio, entre todos os atos virtuosos, é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais “até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis”, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo o que está em Jo 15, 13: “Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos” (3c.).
Um mártir incomum
Para exemplificar a supremacia desse testemunho dos mártires, contemos a história de um mártir tanto quanto incomum: um que, diferentemente de uma Santa Prisca ou de uma Santa Inês, levou uma vida pouco íntegra; um que morreu como santo, mas viveu mal — um “filho” de São Dimas, em suma.
E por que contar uma vida assim? Para animar-nos! Pois, ao celebrarmos na liturgia santos de estatura elevada, de vida íntegra e reputação ilibada, talvez nos sintamos um pouco intimidados e até desanimados. Prisca e Inês, por exemplo, além de mártires, foram virgens — termo que nos assusta porque, infelizmente, nós somos aquela sociedade profetizada por Nossa Senhora do Bom Sucesso, na qual quase já não existem mais “almas virgens”. (Isto é, com a atmosfera de impureza que respiramos, até as pessoas que, “tecnicamente”, são virgens, infelizmente estão com o coração contaminado.) Cristo, porém, como lemos no Evangelho, veio não para os justos, mas para os pecadores. Foi justamente […] o caso de Santo André Wouters, um padre diocesano em Gorcum, na Holanda. Ele era conhecido por sua embriaguez pública, pelos múltiplos casos amorosos que mantinha e por ser pai de inúmeros filhos, apesar de seu voto de celibato. Corsários calvinistas tomaram a cidade e começaram a matar padres e religiosos. De acordo com alguns relatos, ele escolheu juntar-se a eles no cativeiro, onde foi ridicularizado por sua vida de devassidão, infidelidade e escândalo nas mãos dos carrascos calvinistas. Em 9 de julho de 1572, Pe. André Wouters foi executado, ao lado de outros 18 padres e religiosos, por ser católico. Quando o laço foi colocado em volta de seu pescoço, ele foi questionado por seus algozes se renunciaria à sua fé na Eucaristia e no papado a fim de salvar a própria vida. As últimas palavras do Pe. Wouters a seus carrascos foram: “Fornicador eu fui, herege nunca”. Ele seria canonizado pelo Beato Papa Pio IX, juntamente com os outros mártires de Gorcum, em 1865. Sua fé e seu amor a Cristo, exemplificados em seu ato de martírio, expiaram os pecados de sua vida terrena para trazê-lo, pela graça de Deus, à glória celeste [2].
“Fornicador eu fui, herege nunca”: ao reconhecer humildemente a própria culpa e indignidade, numa espécie de ato final de contrição, este sacerdote demonstrava que ninguém foi feito para o pecado, nem mesmo os pecadores. Não é porque um homem cai que deve permanecer deitado, não é porque está sujo que deve ficar imundo para sempre. Em suas palavras se vê também um senso correto da gravidade dos pecados: a fé é maior do que a temperança; Deus é maior do que o corpo; por isso, a heresia é pior do que a fornicação.
Além disso, Pe. André Wouters não “aprovava” o seu pecado. O relato dá a entender que ele suportou com paciência o escárnio de seus perseguidores, começando já aí a reparar sua má conduta passada. E o verbo empregado no passado, “fui”, também mostra como ele já não se identificava com a sua miséria. Nas mãos dos hereges calvinistas, ele certamente se viu bem próximo da morte e abraçou aquela situação como uma oportunidade única de se emendar e redimir.
E foi justamente o que aconteceu. É tal a grandeza do martírio, que extinguiu todos os pecados passados deste padre devasso no fogo abrasado de caridade que o animou a entregar a própria vida! Há, pois, esperança para os pecadores. A misericórdia de Deus se derrama realmente com abundância sobre aqueles que se arrependem sinceramente de seus pecados e procuram consertar sua vida.
Ao celebrarmos os mártires, portanto, lembremo-nos do grande amor que os impulsionou a entregar a própria vida por Cristo, e celebremos esta grande graça que eles receberam das mãos de Deus. Pois digno mesmo ninguém é de receber tamanha honra — nem Santa Prisca, nem Inês, nem Sebastião, nem Santo André. Isso, porém, não relativiza o sacrifício que eles realmente ofereceram para permanecer fiéis a Jesus e incorporados na única Igreja fundada por Ele — Igreja fora da qual eles acreditavam piamente não haver salvação.
Se não acreditassem nisso, não teriam morrido.
E se isso não for verdade, então eles morreram todos em vão.

Fonte: Os fiéis que rezam as Horas canônicas na sua forma antiga podem ter contato com o Martirológio diariamente ao recitar a hora Prima (que foi abolida da atual Liturgia das Horas).
Fr. Matthew MacDonald, On the Limits and Failures of Saints. In: Catholic World Report, 2 jan. 2021.

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