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Será que eu me arrependo de verdade?

Reflexões sobre o Evangelho de Mateus (Mt 21, 28-32)

Jesus está em Jerusalém, sabendo que os mesmos que O aclamaram à entrada da cidade O condenarão à morte na Cruz. Então, em uma última tentativa de converter o coração dos judeus - principalmente, o dos sacerdotes e dos anciãos do povo -, ele conta a parábola dos dois filhos. Convidados por seu pai a trabalhar na vinha, o primeiro peca em um primeiro momento e diz não, mas, depois, se arrepende e vai; o segundo, a princípio, responde que sim, mas desobedece e não vai.
A pedagogia usada por Nosso Senhor nessa passagem é a mesma usada pelo profeta Natã para censurar o rei Davi, por ele ter matado Urias e tomado para si a sua esposa, Betsabeia. Na ocasião, Natã também se serve de uma parábola para se dirigir a Davi. Ele conta a história de um rico que tinha muitos bois e ovelhas e de um pobre que possuía apenas uma pequena ovelha, que “era para ele como uma filha”. Em um ato de grande injustiça, o rico, para dar de comer a um hóspede, ao invés de matar um de seus animais, mata o cordeiro do pobre e prepara-o para o visitante. Davi fica revoltado com a atitude do rico, ao que Natã o repreende: “Este homem és tu!”.
Com a sua parábola, Jesus quer que os judeus caiam em si e, condenando a atitude do segundo filho, ajam como o primeiro e se arrependam.
Ao se referir à atitude do primeiro filho, a palavra grega que, na versão litúrgica brasileira, é traduzida por “mudou de opinião”, é “μεταμεληθεὶς” (lê-se: metamelitheís), a mesma usada no versículo 32 para dizer que os sacerdotes e anciãos não se arrependeram para crer em São João Batista. De fato, o arrependimento é muito mais que uma simples “mudança de opinião”: inclui também um pungimento e uma comoção interior.
No entanto, só isso não é suficiente. É preciso, sobretudo, uma determinação firme de fazer a vontade de Deus. Por isso, Jesus questiona os sacerdotes e anciãos: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” O coração do ensinamento de Jesus nesta parábola é justamente este: “fazer a vontade do Pai”.
Santo Tomás de Aquino, ao responder se a penitência é uma virtude, explica:
“Fazer penitência é doer-se de algo cometido anteriormente. Já se viu também que a dor ou a tristeza pode ser considerada de duas maneiras. Primeira, enquanto é uma paixão do apetite sensitivo e, sob este aspecto, a penitência não é uma virtude, mas uma paixão. Segunda, enquanto é um ato da vontade e, nesse caso, ela implica certa escolha. E se esta é feita de maneira reta, pressupõe que seja um ato de virtude. Diz Aristóteles que a virtude é ‘um hábito de escolher conforme a reta razão’. Pertence, porém, à reta razão que alguém se doa daquilo de que se deve doer. E isso acontece na penitência, de que agora se trata. Pois, o penitente assume uma dor moderada dos pecados passados, com a intenção de afastá-los. Daí se segue que é claro ser a penitência, de que agora falamos, uma virtude ou ato de virtude.”
Para arrepender-se de verdade, não basta “sentir-se mal”; é preciso que a “paixão do apetite sensitivo” se transforme em um ato da vontade. O arrependimento virtuoso deve terminar em uma escolha determinada, pois é nela que está o amor.
Um excelente comentário a essa lição é o episódio da pecadora que, “quando soube que Jesus estava à mesa na casa do fariseu [Simão], trouxe um frasco de alabastro, cheio de perfume, postou-se atrás, aos pés de Jesus e, chorando, lavou-os com suas lágrimas. Em seguida, enxugou-os com os seus cabelos, beijou-os e os ungiu com perfume”. Na ocasião, o fariseu, preocupado com as aparências, achou inconveniente o comportamento daquela mulher. Ela, ao contrário, desprezando completamente o que os outros pensavam dela, queria tão somente amar Nosso Senhor. Embora exista uma carga emocional em seus atos, o que é determinante é a escolha que ela fez de um novo caminho para a sua vida.
No comentário a essa página do Evangelho de São Lucas, São Gregório Magno mostra como aquela mulher que tinha usado todo o seu ser para o pecado, voltou-o totalmente para Jesus:
“Com os olhos, desejara as coisas da terra; com os mesmos, agora, chorava, em sinal de penitência. Com os cabelos que serviam de enfeite para o seu rosto, agora, ela enxugava as suas lágrimas (...). Os lábios com que ela dissera palavras soberbas, agora, osculando os pés do Senhor, ela pregava aos passos de seu Redentor (...). O óleo que ela usara para perfumar o seu corpo de modo torpe agora ela oferecia a Deus de modo louvável (...). Enfim, tudo o que tinha para o próprio prazer, ela oferece em holocausto. Converteu em número de virtudes o número de seus crimes, a fim de consagrar-se inteiramente a Deus por meio da penitência, tanto quanto se tinha separado d’Ele por meio da culpa.”
O amor daquela mulher é o que faz toda a diferença. “Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, pois ela mostrou muito amor”.
Muitas vezes, as pessoas, depois que cometem um pecado, entram em um beco sem saída, pois ficam remoendo constantemente o sentimento de culpa em seu coração. Não entendem que devem determinar-se, a fim de usar tudo o que são e têm para amar e servir a Deus, ao invés de ficarem alimentando inutilmente o que não é virtude, senão paixão.
Nesse caminho, é muito importante não se preocupar com as aparências, com o que os outros vão pensar de nós. A grande dificuldade dos sacerdotes e anciãos do povo, bem como de Simão, o fariseu, era a sua preocupação com o exterior. Por isso as figuras de São João Batista e de Jesus foram motivo de confusão para eles. Enquanto o primeiro pouco comia e bebia - e era repreendido pelos judeus -, o segundo comia e bebia - e era chamado de “comilão e beberrão, amigo de publicanos e de pecadores”. Não aprenderam que a verdadeira religião não tem a ver com as aparências, mas com o coração.
Assim, no Evangelho, o primeiro filho aparentemente desobedece, mas, depois, faz a vontade do pai; e o segundo aparentemente obedece, mas, no fim, manifesta-se como um rebelde. Que o Senhor nos ajude a amá-Lo com verdadeiro amor e determinação e não nos deixe cair na tentação de viver segundo as aparências.

Fonte: Padre Paulo Ricardo

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